A mosca da bicheira do Novo Mundo está a ameaçar, pela primeira vez em 60 anos, a indústria bovina dos EUA avaliada em 113 mil milhões de dólares, depois de ter sido confirmada no sul do Texas uma infestação provocada pelas suas larvas, que se alimentam de carne.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicou que este é o primeiro caso registado no Texas desde 1966.
A ocorrência foi detectada num único vitelo com três semanas, em La Pryor, no Texas, a cerca de 161 quilómetros a sudoeste de San Antonio e a aproximadamente 80 quilómetros da fronteira entre os EUA e o México.
Surto no sul do Texas e histórico da mosca da bicheira do Novo Mundo
A presença destas moscas letais no México foi assinalada no final de 2024, depois de, durante anos, a sua expansão ter sido travada e limitada ao extremo sul do Panamá.
Entre, pelo menos, as décadas de 1930 e 1960, esta mosca foi um flagelo anual associado ao tempo quente para os criadores de gado. A erradicação nos EUA foi alcançada através de um método que se tornou clássico: criar machos estéreis e largar, a partir de aviões, grandes quantidades destes insetos para acasalarem com fêmeas selvagens.
No Hemisfério Ocidental existe a mosca da bicheira do Novo Mundo; em África e na Ásia surge um “parente” equivalente, conhecido como mosca da bicheira do Velho Mundo. Ambas se distinguem da maioria das moscas porque as larvas (bicheiras) consomem tecidos vivos e fluidos, em vez de matéria orgânica em decomposição.
Como ocorre a infestação e por que o gado é particularmente vulnerável
Depois de acasalarem - algo que acontece apenas uma vez ao longo de uma vida que pode durar meses - as fêmeas depositam ovos em feridas abertas e em membranas mucosas.
A infestação pode atingir qualquer animal de sangue quente, incluindo fauna selvagem, animais de companhia e, em alguns casos, até seres humanos.
Segundo Lee Haines, professora associada de investigação em ciências biológicas na Universidade de Notre Dame, o gado é um dos alvos mais expostos.
Práticas habituais no maneio podem provocar rutura da pele: a tosquia e a descorna são exemplos, e até movimentar os animais para dentro e fora de currais pode causar arranhões e pequenos cortes.
O parto, acrescentou Haines, também deixa vulneráveis tanto a mãe como o vitelo.
Stephen Diebel, criador no Texas e presidente da Texas & Southwestern Cattle Raisers Association, sublinhou que mesmo lesões “tão pequenas como uma picada de carraça” podem colocar os bovinos em risco.
Se não houver tratamento, a infestação pode ser fatal. Ainda assim, existe um conjunto de cerca de uma dúzia de tratamentos aprovados para utilização em várias espécies.
As autoridades agrícolas apressaram-se, contudo, a esclarecer que esta mosca não infesta alimentos. A secretária da Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, afirmou que é improvável que a situação prejudique a produção de carne de bovino - uma nota bem recebida numa altura em que os consumidores já enfrentam preços recorde.
Alerta e propagação pela América Central e México
Desde que, em novembro de 2024, foi confirmado um caso no sul do México, responsáveis federais e estaduais, bem como dirigentes do setor pecuário, têm vindo a alertar publicamente para o avanço da mosca através do território mexicano em direção aos EUA.
De acordo com um programa conjunto EUA–Panamá, o parasita tinha sido considerado erradicado da América Central e da América do Norte quase duas décadas antes. Esse estatuto mudou quando um surto no Panamá levou à declaração de estado de emergência no início de 2023.
Ainda nesse ano, foram registados casos na Costa Rica e na Nicarágua.
Edward Burgess, entomólogo da Universidade da Florida, explicou que a espécie se multiplica rapidamente e é transportada por grandes áreas através dos seus hospedeiros - em particular animais selvagens, como veados.
“É difícil mantermo-nos à frente, por causa da rapidez com que essa mosca consegue deslocar-se e regenerar-se”, disse Burgess.
Fora dos EUA, adoeceram milhares de animais e centenas de pessoas.
Até 2 de junho, o parasita tinha causado doença a mais de 171.700 animais e 2.000 pessoas na América Central e no México, segundo os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC).
O CDC refere que ocorreram 10 mortes humanas.
Haines apontou as alterações climáticas como um fator determinante na expansão de uma espécie tropical que prospera em ambientes quentes.
Com temperaturas mais elevadas, o habitat da mosca alarga-se; ao mesmo tempo, as vagas de frio que, todos os anos, eliminavam populações em zonas limítrofes estão a tornar-se menos frequentes e menos intensas, disse.
Medidas no Texas: quarentena, controlo e produção de moscas estéreis
O veterinário do Estado do Texas, Bud Dinges, determinou uma zona de quarentena de 20 quilómetros que cobre grande parte do condado de Zavala - onde se situa La Pryor - e uma pequena área do vizinho condado de Uvalde.
Criadores locais receiam que a mosca se espalhe entre a fauna selvagem, sobretudo veados, à semelhança de um surto pequeno e de curta duração ocorrido nos Florida Keys em 2016.
Esse foi o último momento em que se confirmou um caso entre animais nos EUA, embora o CDC tenha validado no ano passado um caso num homem do Maryland que tinha viajado para El Salvador e recuperou.
A partir de maio de 2025, Rollins mandou fechar as passagens fronteiriças ao trânsito de gado e, na quinta-feira, atribuiu a essa decisão o facto de ter atrasado em um ano a chegada da mosca ao Texas.
O USDA tem vindo a largar moscas estéreis no sul do Texas desde fevereiro, mês em que abriu ali um centro destinado à sua dispersão.
Atualmente, os lançamentos ocorrem duas vezes por semana, num total de 4 milhões de moscas, e são também colocados no solo mais 4 milhões por semana sob a forma de pupas - a fase intermédia entre larva e adulto.
Como, durante anos, estiveram encerradas instalações fora do Panamá, o USDA investiu 21 milhões de dólares numa nova unidade de criação no sul do México, que deverá começar a funcionar no próximo mês.
Paralelamente, o USDA está a gastar 750 milhões de dólares para construir uma fábrica de moscas no sul do Texas, com capacidade para produzir até 300 milhões de moscas estéreis por semana. Prevê-se que entre em operação no próximo outono.
Porque a libertação de moscas estéreis é eficaz
A libertação de moscas estéreis é um método antigo e comprovadamente muito eficaz.
Os machos são, no sentido científico, “promíscuos”, mas as fêmeas não; e, se o único acasalamento de uma fêmea for com um macho estéril, nenhum ovo dessa fêmea irá eclodir.
Quando os machos estéreis se tornam suficientemente comuns, a população da mosca entra em declínio e acaba por desaparecer.
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