O que parece um truque esperto para ganhar tempo acaba, afinal, por ser um erro com impacto no sabor e na saúde. As autoridades de saúde desaconselham de forma inequívoca o uso de água quente da torneira para preparar café, chá ou sopas. O ponto crítico não é apenas a temperatura: é também o percurso que a água faz até chegar à chávena - atravessando canalizações antigas e o acumulador de água quente.
O que as autoridades recomendam, na prática
Segundo a orientação de organismos de saúde e especialistas em água, na torneira há apenas um tipo de água que é verdadeiramente considerado água para beber: a água fria da torneira. Esta água é monitorizada com regularidade pelas entidades competentes e analisada face a limites rigorosos, por exemplo para chumbo e outras substâncias.
Já a água quente da torneira não é, do ponto de vista legal, tratada como “água para beber”. Antes de chegar à sua chávena, passa pelas tubagens internas da casa e depois pelo esquentador/boiler ou pelo depósito/acumulador de água quente. Estes equipamentos não estão sujeitos ao mesmo nível de controlo que a rede de água fria. E é precisamente aqui que começa o problema para a sua máquina de café.
"Para café, chá, comida de bebé ou para cozinhar, deve usar-se sempre e exclusivamente água fria da torneira, que só depois é aquecida."
Após um período sem uso - por exemplo, durante a noite ou depois de um fim de semana - os especialistas aconselham a deixar correr a água fria da torneira durante 1 a 2 minutos antes de encher a máquina de café ou a chaleira. Em casas mais antigas, com canalizações envelhecidas, este hábito é ainda mais importante.
A água que sai primeiro não precisa de ser desperdiçada: é perfeitamente útil para lavar loiça, limpar ou regar plantas.
Porque é que a água quente dissolve mais metais
Em muitos edifícios antigos, ainda existem tubagens ou ligações domésticas com chumbo. As estimativas apontam para vários milhões de habitações potencialmente afectadas. Em instalações mais recentes, predominam os tubos de cobre, muitas vezes com componentes em níquel ou latão.
Quando a água fica parada nestas canalizações, começa a dissolver pequenas quantidades de metais do material. É um processo lento, mas contínuo. E a temperatura tem um papel decisivo: quanto mais quente estiver a água, maior tende a ser a libertação de metal para a água.
Medições indicam que, a 25 °C, pode passar para a água cerca do dobro do chumbo do que a 15 °C. Com água muito morna ou quente, este efeito intensifica-se ainda mais. Por isso, quem acha que está a ser particularmente “esperto” ao encher a máquina de café directamente com água morna acaba, muito provavelmente, por levar mais metais para a chávena do que seria necessário.
"Aquecer elimina microrganismos, mas não remove metais - estes ficam na água ou podem até concentrar-se."
Ferver, portanto, não resolve um segundo problema: os metais já dissolvidos permanecem por completo na água. Se, ao aquecer, parte da água evaporar, a concentração dessas substâncias pode até subir ligeiramente. Do ponto de vista da higiene, ferver pode ajudar; do ponto de vista da carga de metais, não.
O que mais acontece no acumulador de água quente
Há ainda um aspecto frequentemente subestimado: o que se passa dentro do acumulador de água quente. A água pode permanecer ali durante horas ou dias. Muitas vezes, a temperatura situa-se algures entre 50 e 60 °C - adequada para o duche e o lavatório, mas longe do ideal para usar como água destinada a bebidas.
Neste intervalo de temperaturas, certos microrganismos podem sentir-se confortáveis, como as legionelas. Para pessoas saudáveis, o risco costuma ser baixo, mas a regra geral mantém-se: os sistemas de água quente são concebidos para higiene no banho e na lavagem, não para encher uma chávena de café.
Além disso, alguns boilers e depósitos incluem ânodos ou outros componentes que podem libertar substâncias adicionais para a água. Também aqui, o calor tende a aumentar a passagem de componentes para a água.
As regras mais importantes para um café mais seguro em casa
Com alguns hábitos simples, é possível reduzir claramente o risco no dia a dia - e, na maioria dos casos, o café até fica com melhor sabor.
- Encha sempre a máquina de café, a chaleira ou a máquina de expresso com água fria da torneira.
- Depois de a água ter estado parada, deixe correr a água fria entre 30 e 120 segundos.
- Para bebés, crianças pequenas e grávidas, cumpra esta regra com especial rigor.
- Se as canalizações estiverem muito desactualizadas, considere uma renovação a médio prazo.
- Use filtros de água apenas se fizer manutenção regular e substituir os cartuchos conforme as instruções do fabricante.
No caso de grávidas e crianças pequenas, o chumbo é particularmente relevante. O organismo reage de forma mais sensível e o desenvolvimento do sistema nervoso pode ser afectado com exposição prolongada. Por isso, famílias a planear ter filhos ou com bebés devem levar estas recomendações muito a sério.
Como isto afecta o sabor e a qualidade do café
Não é só a saúde que pode sair prejudicada com água quente da torneira: o sabor também. O café é muito sensível à qualidade da água. Metais, cloro e outras substâncias influenciam de forma clara o amargor, a acidez e o aroma.
Muitos baristas escolhem propositadamente água fria e fresca da torneira - ou água filtrada - e só depois a aquecem. Assim, conseguem controlar melhor a temperatura e a composição. Quem, em casa, troca a água quente da torneira por água fria fresca costuma notar ao fim de poucos dias: o café fica mais redondo, mais limpo, menos “baço”.
"Um bom café não começa no grão, mas na água da torneira."
Quem tem uma máquina de expresso de qualidade deve, de qualquer forma, usar apenas água fria. Estes equipamentos são desenhados para atingir, por si, a temperatura ideal. Se os encher com água da torneira já pré-aquecida, pode não só piorar a qualidade da água, como também acrescentar esforço desnecessário à componente técnica.
Quando pode fazer sentido usar um filtro de água
Muitas pessoas ponderam se um filtro de jarro ou um sistema de filtragem debaixo do lava-loiça pode ser um bom complemento. Dependendo do modelo, estes sistemas podem reduzir calcário, cloro e, em alguns casos, também metais. Ainda assim, não substituem a recomendação principal: utilizar exclusivamente água fria.
Quem decide filtrar tem de ser rigoroso com a manutenção. Cartuchos velhos ou sujos podem tornar-se uma fonte de microrganismos. Nessa situação, o resultado pode ser pior do que usar água da torneira sem filtro. Por isso, os filtros são mais um ajuste fino para sabor e dureza, e não a solução para “transformar” água quente potencialmente carregada em água apropriada para beber.
Dicas práticas para o dia a dia na cozinha e na casa de banho
Estas recomendações não se aplicam apenas ao café. Em termos gerais, a água quente da torneira não deve ir directamente para a panela - mesmo que isso pareça acelerar o tempo até a massa começar a ferver. O mais seguro é encher com água fria e aquecer no fogão.
O mesmo princípio vale para sopas instantâneas, chá, cacau ou papas de aveia. Quem anda muitas vezes com pressa pode adoptar um hábito simples: de manhã, logo ao levantar, deixar correr um pouco a água fria e depois encher por completo um jarro ou a chaleira. Assim fica com água suficiente para café, chá e pequeno-almoço, sem ter de “lavar” a torneira repetidamente.
Na casa de banho surge uma dúvida semelhante: para lavar os dentes, usar água morna ou fria? Pelas mesmas razões, os especialistas são claros a favor da água fria da torneira - mesmo quando o copo da escova está ali ao lado do lavatório.
Se vive numa casa muito antiga ou suspeita da existência de tubos de chumbo, pode pedir informação ao fornecedor local de água ou à autoridade de saúde sobre possibilidades de teste. Em algumas regiões, as amostras domésticas têm custo reduzido ou são analisadas no âmbito de programas específicos. Isso ajuda a perceber se são necessárias medidas adicionais.
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