Embora não seja propriamente agradável no momento em que acontece, tremer é um reflexo fisiológico essencial, sem o qual a nossa sobrevivência não teria sido possível.
O inverno está à porta: a oportunidade perfeita para olhar para esta reação instintiva do nosso organismo e perceber porque reage desta forma. Sejamos mais ou menos friorentos, no fim de contas continuamos a ser grandes mamíferos sensíveis às variações de temperatura, apesar dos casacos e dos aquecedores. Para garantir o bom funcionamento das funções vitais, o corpo humano tem de manter a sua temperatura interna por volta dos 37,2 °C, ainda que existam pequenas diferenças entre indivíduos.
Quando essa temperatura desce, o cérebro deteta de imediato essa alteração e põe em marcha vários mecanismos fisiológicos de compensação. Um dos mais importantes é a termogénese, um processo através do qual o organismo aumenta a produção de calor. Essa aceleração do metabolismo manifesta-se, na sua forma mais visível, por contrações musculares involuntárias: os arrepios e, quando é necessário intensificar ainda mais a produção de calor, os tremores.
Um reflexo indispensável para conservar o calor
É o hipotálamo que coordena a termogénese, uma região do cérebro onde se encontram neurónios que funcionam como sensores internos da nossa temperatura corporal. Assim que a temperatura do sangue que os irriga baixa, mesmo que seja de forma muito ligeira, esses neurónios alteram a sua atividade elétrica e ativam as vias nervosas responsáveis por aumentar a produção de calor.
Segundo a especialista Dr.ª Romina Sifuentes Palomino, esta estrutura cerebral «consegue detetar uma queda mínima da temperatura interna» e depois «desencadeia uma atividade muscular rápida para manter a estabilidade». Estes espasmos musculares resultam de uma adaptação evolutiva própria dos mamíferos homeotérmicos (aqueles que mantêm uma temperatura corporal interna constante, independentemente do ambiente), que geram calor a partir do movimento.
Se o nosso organismo continua a reagir desta maneira, é porque a seleção natural favoreceu, geração após geração, os indivíduos cuja termogénese muscular permitia evitar a hipotermia (uma condição médica perigosa quando a temperatura corporal central desce abaixo dos 35 °C) antes de esta se tornar irreversível.
Assim que o nosso corpo começa a tremer, ou pelo menos a arrepiar-se, os músculos passam a produzir calor através de rápidos ciclos de contração e relaxamento. Estes movimentos aumentam o consumo de ATP (adenosina trifosfato, a principal «molécula energética» usada pelas células). Esta molécula é composta por várias partes, entre elas um pequeno «bloco» carregado de energia, chamado grupo fosfato. Quando o músculo precisa dele, esse grupo é destacado (hidrólise): a quebra dessa ligação liberta a energia que permite às fibras musculares contraírem-se, e uma parte dessa energia transforma-se automaticamente em calor.
Uma barreira muito dispendiosa contra a hipotermia
O reverso da medalha é que este processo exige uma enorme quantidade de energia ao organismo, mas é precisamente por isso que é tão eficaz. Como o corpo acelera para produzir calor, o gasto energético dispara e o consumo de calorias aumenta bastante.
É por isso que nos sentimos mais rapidamente cansados quando está frio, porque o corpo desvia parte dos seus recursos para se manter quente, em detrimento do resto. No entanto, se a exigência energética se tornar excessiva, as reservas esgotam-se e os tremores param: a termogénese deixa de conseguir acompanhar, privando o organismo do seu último meio de aquecimento e empurrando-o diretamente para a hipotermia.
Provavelmente já ouviu alguém dizer-lhe: «Deixa-te tremer, isso aquece-te!». Pois bem, essa pessoa, mesmo sem conhecer necessariamente todos os processos fisiológicos associados à termogénese, estava certa. Embora não seja nada confortável, arrepiar-se e tremer são dois reflexos arcaicos que podem, em certos casos, fazer subir a temperatura corporal em poucos minutos.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário