Um truque simples de cozinha resolve o problema de forma discreta.
Quem tem horta em casa já passou por isto: cuida das primeiras plantinhas de alface, fica a imaginar a colheita e, de um dia para o outro, encontra no canteiro apenas folhas roídas e talos. Antes de recorrer a produtos químicos, há uma solução engenhosa para afastar lesmas do canteiro de legumes sem as matar. A ideia passa por construir uma “caixa de lesmas” com uma embalagem comum, oferecendo-lhes um abrigo alternativo suficientemente apetecível para as tirar das culturas.
Porque é que as lesmas adoram a sua horta
Assim que anoitece ou depois de chover, as lesmas entram em actividade. Saem de fendas, do composto, debaixo de pedras e dirigem-se, de propósito, às plantas mais tenras.
- Procuram humidade e sombra.
- Dão preferência a folhas macias e jovens.
- Gostam de alfaces, morangos, sementeiras recentes e plantas perenes com folhagem suave.
Num jardim equilibrado, as lesmas fazem parte do ecossistema. O problema começa quando a população aumenta demasiado. A partir daí, basta um número relativamente pequeno para “rapar” canteiros inteiros.
"Uma lesma adulta pode comer por dia quase metade do seu peso em plantas - isso nota-se muito depressa no canteiro de legumes."
Em anos amenos e húmidos, este equilíbrio perde-se com facilidade. Quem não se prepara a tempo acaba, muitas vezes, por perder em poucas noites sementeiras completas de alface, couve-rábano, curgete ou até tubérculos de dálias no canteiro ornamental.
É mesmo necessário exterminar lesmas?
Por frustração, muitos jardineiros recorrem aos clássicos: granulados com veneno, armadilhas de cerveja, barreiras com sal. À primeira vista parece uma resposta “definitiva”, mas traz vários inconvenientes.
- Os granulados tóxicos colocam em risco ouriços-cacheiros, aves e animais de estimação.
- As armadilhas de cerveja atraem lesmas de toda a vizinhança.
- O sal provoca grande sofrimento aos animais e ainda prejudica o solo.
Quem cuida do jardim de forma mais natural procura, em vez disso, promover um equilíbrio. As lesmas são uma peça importante na cadeia alimentar: ouriços-cacheiros, sapos, certos carabídeos e muitas aves usam-nas como fonte de proteína. Se desaparecerem por completo, falta um elemento essencial do sistema.
É precisamente aqui que entra a armadilha caseira. Ela retira as lesmas dos canteiros sem as ferir e permite transferi-las para um local adequado, fora das zonas de cultivo.
A solução esperta: transformar uma caixa de salada numa armadilha para lesmas
O método é quase óbvio: uma caixa transparente de plástico, do tipo usado em saladas prontas, passa a servir de esconderijo atractivo. Com alguma rotina, dá para reduzir de forma notória o número destes visitantes vorazes.
O que vai precisar
- Uma embalagem de plástico transparente com tampa (por exemplo, de salada embalada ou de frutos vermelhos)
- Um pedaço de fruta ou legume muito maduro, como maçã, melão ou folhas de alface já murchas
- Uma faca afiada ou tesoura
- Um pouco de terra húmida ou musgo
- Uma pequena pedra para calçar
Como montar a caixa de lesmas, passo a passo
- Faça, com um furo ou corte, várias aberturas pequenas nas laterais da caixa, cerca de 2 cm acima do fundo. Por estas fendas, as lesmas conseguem entrar e sair, mas a humidade mantém-se em grande parte.
- Coloque no interior uma camada fina de terra húmida ou musgo. Isto reproduz os abrigos naturais onde as lesmas costumam ficar durante o dia.
- Ponha a fruta ou o legume muito maduro no centro. O cheiro doce e ligeiramente fermentado funciona como íman.
- Vire a caixa ao contrário, deixando a tampa voltada para baixo e a parte maior a formar uma pequena “caverna”.
- Calce um dos lados com uma pedra, criando uma entrada baixa. Assim, os animais encontram o caminho para dentro com facilidade.
"Durante a noite, as lesmas deslizam até à armadilha perfumada, juntam-se lá e ficam no interior húmido, enquanto os seus canteiros ficam, em grande medida, a salvo."
De manhã, levante a caixa com cuidado. Muitas vezes, há vários exemplares na parte superior ou dentro do abrigo. Leve então o conjunto para um sítio apropriado - por exemplo, junto a uma sebe mais selvagem, uma vala ou um recanto não usado e mais natural - e só aí a abra, esvazie e lave.
Porque é que este método resulta tão bem
A mistura de alimento, humidade e escuridão atrai praticamente todas as espécies de lesmas comuns no jardim. A fruta madura liberta aromas intensos perceptíveis a alguns metros. Ao mesmo tempo, a “cúpula” de plástico protege do sol e de predadores - as lesmas sentem-se seguras.
O plástico transparente tem ainda outro efeito: lá dentro, elas demoram mais a encontrar a saída, porque escorregam nas paredes lisas e orientam-se pela luz. Isso dá-lhe tempo suficiente para as recolher de manhã e transportá-las.
Como não há venenos nem líquidos com álcool, o resto do jardim não é afectado. Carabídeos, ouriços-cacheiros, aves ou animais de estimação não ficam em risco. Pode manter a armadilha activa durante toda a época de cultivo e, em caso de infestação forte, colocar várias em simultâneo em diferentes canteiros.
Evite erros típicos com armadilhas para lesmas
Para que a ideia funcione mesmo, há pormenores que contam. Pequenas falhas podem reduzir bastante a eficácia.
- Não coloque a caixa ao sol directo. O interior aquece rapidamente, a fruta seca e isso tende a afastar as lesmas.
- Use fruta e legumes muito maduros, mas não totalmente apodrecidos. Restos demasiado podres também atraem moscas e formigas.
- Não liberte as lesmas perto de jardins alheios. São preferíveis bermas de mato, terrenos em pousio, faixas de sebes ou taludes - a algumas centenas de metros.
O ideal é verificar as armadilhas diariamente. Assim evita maus cheiros, substitui o isco a tempo e mantém controlo sobre a quantidade de lesmas no seu jardim.
Com mais diversidade no jardim contra a multiplicação em massa
A armadilha feita em casa dá melhores resultados quando integra uma estratégia mais ampla. O objectivo é um jardim estável e cheio de vida, onde plantas, animais e microrganismos se equilibram.
Pode ajudar de várias formas:
- Criar abrigos para auxiliares, como montes de madeira morta, ilhas de folhas secas e alinhamentos de pedras.
- Fazer pequenos pontos de água onde sapos e tritões se sintam bem.
- Plantar faixas floridas, que atraem insectos e dão alimento às aves.
- Usar a cobertura morta (mulch) com moderação e não a encostar a plântulas muito sensíveis, porque é um esconderijo favorito das lesmas.
- Proteger plantas delicadas com barreiras mecânicas, como areia grossa, cascas de ovo trituradas ou anéis próprios.
Se regar mais de manhã do que ao fim do dia, também retira às lesmas parte do ambiente ideal. A rega por gotejamento ao nível do solo, em vez de aspersão ampla, ajuda a superfície a secar mais depressa.
Dicas práticas e complementos úteis
Para quem está a começar, surge muitas vezes a dúvida: a que distância é preciso levar as lesmas para que não regressem? Muitos jardineiros experientes sugerem contar, pelo menos, com várias centenas de metros. As lesmas são lentas, mas surpreendentemente persistentes quando já encontraram um “local preferido”.
Outra combinação interessante é usar as armadilhas com “plantas de sacrifício”. Se criar, por exemplo, um pequeno canteiro mais afastado com espécies muito apetecidas - como certas variedades de Tagetes ou alfaces especialmente tenras - e colocar armadilhas aí, concentra a atracção nesse ponto. As lesmas são puxadas para esse local e tendem a deixar o resto do jardim mais sossegado.
Quando a pressão é muito alta, vale a pena observar a estrutura do solo. Solos pesados, sempre húmidos e cheios de esconderijos favorecem as lesmas. A incorporação de areia, a mobilização regular e a remoção de coberturas desnecessárias reduzem os abrigos disponíveis. Assim, o efeito da armadilha com a caixa de salada intensifica-se por si.
Para as crianças, este método pode ser um primeiro contacto muito interessante com a ecologia do jardim. Percebem que é possível resolver problemas no canteiro com criatividade - sem violência e sem venenos. A caixa de lesmas feita com uma embalagem da cozinha mostra que, com meios simples, se consegue muito quando se compreendem as necessidades dos animais e se as orienta para outro lado.
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