Os ribeiros mediterrânicos costumam parecer serenos e familiares. Nas margens, caniços altos e verdes formam paredes densas, ondulando ao vento como se sempre tivessem feito parte da paisagem. No entanto, muitas destas plantas não são autóctones.
Entre as espécies invasoras de zonas ribeirinhas, a Arundo donax espalhou-se amplamente por várias regiões da Europa e também fora dela. À primeira vista, pode passar por inofensiva. Investigação recente mostra que o impacto é bem mais profundo.
Esta planta não se limita a ocupar o lugar das espécies nativas. Também pode alterar a forma como os mosquitos crescem e sobrevivem. Essa ligação tem potencial para mexer tanto com os ecossistemas como com a saúde humana.
A invasão da cana-gigante
A Arundo donax, conhecida como cana-gigante, propaga-se rapidamente e consegue dominar as margens dos cursos de água. Ao fazê-lo, substitui espécies nativas como Phragmites australis, que sustentam estes ecossistemas há milhares de anos.
As duas plantas são muito parecidas no aspecto. Para muitas pessoas, é difícil distingui-las. Essa semelhança ajuda a camuflar um problema essencial: quando uma substitui a outra, as consequências não se ficam pela vegetação.
Para testar esta hipótese, investigadores da Universidade de Barcelona recorreram a um ensaio controlado. Montaram pequenos sistemas aquáticos em frascos de vidro.
Em cada frasco colocaram água e diferentes combinações de folhas caídas das duas espécies de caniço.
Tal como acontece no meio natural, as folhas afundaram, começaram a degradar-se e libertaram nutrientes na água. Este processo criou as condições de base para tudo o que aconteceu a seguir.
Microrganismos multiplicam-se na água
À medida que as folhas se decompunham, começaram a proliferar organismos microscópicos. Entre eles estavam flagelados, ciliados e amebas. Em conjunto, estes grupos integram uma parte crucial das redes alimentares aquáticas.
Alimentam-se de bactérias e, por sua vez, servem de suporte a organismos maiores. Em termos simples, ajudam a transformar matéria vegetal morta em energia disponível para outras formas de vida.
Nos frascos com folhas da espécie invasora, os números destes microrganismos foram muito superiores. A invasora gerou condições de alimentação mais ricas.
Duas semanas depois, os investigadores introduziram larvas de Culex pipiens. Esta espécie comum de mosquito pode transmitir doenças como o vírus do Nilo Ocidental e a malária aviária.
O padrão foi inequívoco. Nos frascos sem material foliar, todas as larvas morreram. Não tinham qualquer fonte de alimento. A vida microbiana gerada pela decomposição das folhas revelou-se indispensável para a sobrevivência.
Crescimento mais rápido nas larvas
As larvas criadas com folhas de cana-gigante tiveram melhor desempenho. Desenvolveram-se em menos tempo. Um número maior atingiu a fase de pupa. Além disso, as pupas eram mais pesadas.
Este pormenor é relevante. Mosquitos de maior tamanho tendem a viver mais tempo e a produzir mais ovos, o que faz aumentar a população ao longo do tempo.
“Este efeito foi catalisado por mudanças na qualidade da água e na abundância de certos grupos de microeucariotas, tais como flagelados e amebas, que fazem parte das redes alimentares microbianas de que as larvas do mosquito comum Culex pipiens se alimentam”, explicou o Professor Alberto Maceda-Veiga.
Pequena mudança, grande impacto
Os investigadores antecipavam alterações graduais à medida que aumentava a proporção de folhas da invasora. Em vez disso, observaram uma mudança abrupta.
Quando apenas vinte e cinco por cento do material foliar era da planta invasora, o crescimento dos mosquitos alterou-se de forma significativa. A partir desse limiar, o sistema manteve-se neste novo estado.
Isto levanta preocupações. Eliminar apenas uma parte da planta invasora poderá não ser suficiente para reduzir os seus efeitos.
Implicações para a saúde humana
O aumento das populações de mosquitos não é apenas um tema ecológico. Também pode traduzir-se em consequências para a saúde humana.
“É importante lembrar que o mosquito comum pode actuar como vector de doenças de importância médica e veterinária”, afirmou Maceda-Veiga.
“Identificar quais as plantas que favorecem a proliferação de mosquitos ajuda os serviços de controlo de pragas a prever onde é mais provável encontrar larvas e a aplicar medidas de controlo, quando necessário.”
A poluição agrava o problema
Em linhas de água poluídas, a situação pode tornar-se ainda mais grave. Predadores naturais, como peixes e libélulas, muitas vezes não estão presentes.
“Nos ecossistemas de água doce mais severamente afectados pela poluição química, os predadores aquáticos naturais das larvas, como peixes e libélulas, estão frequentemente ausentes”, assinalou Maceda-Veiga.
“Muitas larvas significam muitos mosquitos adultos, o que pode causar incómodo às pessoas e até representar riscos para a saúde.”
Limites do controlo de plantas
As plantas, por si só, não determinam as populações de mosquitos. Estes ecossistemas são moldados por muitos factores. Os investigadores sublinharam que este é apenas um componente do problema.
“Quando a erradicação de uma espécie invasora não é viável, recorremos a medidas de mitigação”, disse Maceda-Veiga.
“No caso dos mosquitos, não devemos ceder ao alarmismo. Na natureza, os mosquitos têm muitos predadores.”
Este equilíbrio continua a existir em sistemas mais saudáveis.
Planta invasora intensifica os impactos dos mosquitos
O estudo ilustra como uma única alteração pode propagar efeitos por todo um ecossistema. Uma planta substitui outra; as suas folhas caem na água e começam a decompor-se.
Os microrganismos respondem a esta nova fonte de nutrientes e multiplicam-se. Em seguida, os mosquitos alimentam-se desses microrganismos e crescem mais depressa.
Com o tempo, esta cadeia de acontecimentos ultrapassa o ecossistema e passa a tocar a saúde humana. Ligações deste tipo são fáceis de ignorar: a paisagem pode parecer idêntica, mas as consequências não são.
Compreender estas relações permite ver os ecossistemas com mais clareza. E lembra-nos que mudanças pequenas podem, ao longo do tempo, gerar efeitos muito maiores.
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