Pesquisadores descobriram que uma nova lavagem de fruta consegue retirar a maior parte dos pesticidas à superfície e, ao mesmo tempo, deixar um revestimento comestível que atrasa a deterioração.
Ao juntar limpeza e protecção, um simples enxaguamento passa a ser uma forma de tornar os produtos frescos mais seguros e a durar mais tempo.
Resíduos na casca
Em maçãs tratadas com três pesticidas comuns, o efeito observou-se sobretudo na pele: a lavagem eliminou 86 a 94 percent do resíduo.
Na University of British Columbia (UBC), a Dra. Tianxi Yang, professora auxiliar, demonstrou este resultado ao testar um enxaguamento concebido para lidar com o tipo de contaminação que as pessoas realmente levam para casa.
Água simples, amido e bicarbonato de sódio também reduziram a sujidade nas maçãs, mas nenhum atingiu o mesmo nível de remoção.
A diferença levanta uma questão óbvia: o que há nesta lavagem que lhe permite desprender muito mais resíduos da fruta.
Como funciona a lavagem de fruta
No interior do líquido, minúsculas partículas de amido transportam ferro e ácido tânico, um composto vegetal responsável pelo sabor adstringente do chá.
Quando estes ingredientes entram em contacto, organizam-se numa rede metal-fenólica pegajosa - uma espécie de malha capaz de se ligar a moléculas de pesticidas.
Como essa rede se agarra em simultâneo à superfície do fruto e ao resíduo, grande parte da contaminação acaba por se soltar.
O uso de amido também é importante, porque material derivado de milho e batata se degrada naturalmente, em vez de deixar uma película plástica persistente.
Porquê uma dupla acção
Os produtos frescos estragam-se depressa, e as perdas globais de frutas e legumes chegaram a 25.4 percent em 2023.
Uma fatia significativa dessas perdas ocorre porque a fruta, quando fica pisada e começa a secar, continua a “respirar” depois da colheita e gasta rapidamente água e açúcares.
A lavagem habitual pode reduzir algum resíduo, mas não abranda a secagem nem as marcas de manuseamento que surgem a seguir.
Isto abriu espaço para uma solução que, primeiro, limpa e, depois, protege a fruta durante os dias mais vulneráveis após a compra.
O revestimento protector
Depois da primeira lavagem, um segundo mergulho seca e forma um revestimento comestível leve, que reduz a passagem de oxigénio e a perda de água.
Isto é relevante porque a fruta cortada escurece quando as enzimas entram em contacto com o oxigénio, e a desidratação acelera o amolecimento que as pessoas notam em primeiro lugar.
“Este revestimento funciona como uma segunda pele respirável”, disse a Dra. Yang. Como a camada continua a permitir a troca de gases, pode atrasar a degradação sem selar a fruta em condições de baixo oxigénio.
O que as maçãs mostraram
Em maçãs acabadas de cortar, o impacto do revestimento surgiu rapidamente: ao longo de dois dias no frigorífico, escureceram mais devagar e perderam menos água.
Com menos humidade a escapar, as fatias mantiveram-se mais firmes e menos áreas expostas ficaram com o castanho baço que os consumidores normalmente rejeitam.
As medições de acidez e de açúcares naturais também se mantiveram mais elevadas, o que sugere que a fruta reteve melhor o sabor.
Este atraso não é longo, mas é particularmente importante na fruta cortada, porque a deterioração começa quase de imediato após o corte.
O que as uvas mostraram
Nas uvas inteiras, o efeito foi mais prolongado: mantiveram-se túrgidas durante 15 dias à temperatura ambiente, enquanto as não tratadas murcharam visivelmente.
Isto aconteceu porque o revestimento diminuiu a perda de água através da pele, que é a via mais rápida para o enrugamento.
As uvas tratadas também apresentaram actividade antimicrobiana - a capacidade de travar microrganismos nocivos - o que pode atrasar ainda mais a deterioração.
Para produtores e retalhistas, mesmo um ganho modesto pode significar tempo precioso durante o transporte e na exposição em prateleira.
Segurança do enxaguamento
A segurança depende tanto da dose como da química, e o ferro extra proveniente de uma maçã lavada manteve-se muito baixo.
Os limites superiores para adultos em ferro situam-se em 45 milligrams por dia, muito acima do que o revestimento acrescentou.
“O nosso objectivo era criar uma lavagem simples, segura e acessível que melhorasse tanto a segurança alimentar como a qualidade dos alimentos”, afirmou Yang.
Ainda assim, esta promessa exige testes mais abrangentes, porque a ingestão segura num único fruto não responde a todas as dietas nem a todas as faixas etárias.
Quanto poderá custar escalar
A adopção comercial vai depender dos custos, e as estimativas preliminares colocam o tratamento perto de três cêntimos por maçã.
Este valor foi calculado a partir de ingredientes baratos misturados em água, com o ácido tânico e os sais de ferro a representarem apenas parte do custo.
A conta não incluiu equipamento, gestão de águas residuais, manutenção ou exigências regulamentares que linhas de embalamento de grande escala teriam de cumprir.
Mesmo assim, se o preço conseguir equiparar-se ao dos revestimentos actuais, acrescentando ainda a remoção de pesticidas, é provável que os processadores prestem atenção.
Do laboratório ao lava-loiça
Uma versão para uso doméstico ainda está mais distante, embora a Dra. Tianxi Yang já tenha descrito uma solução sob a forma de pulverização ou de comprimido dissolúvel.
“Imagine uma pulverização ou um comprimido que pudesse adicionar à água mesmo antes de lavar a fruta”, disse Yang.
Para chegar a casa, continua a ser necessária avaliação regulamentar e testes em condições reais, abrangendo diferentes frutas, tipos de casca e hábitos de lavagem.
Até lá, a recomendação oficial mantém-se: água corrente. Entretanto, esta fórmula fica como um passo seguinte promissor.
Porque isto pode importar
O que se destaca aqui é uma tecnologia alimentar pouco comum por atacar, ao mesmo tempo, dois incómodos do dia-a-dia: resíduos químicos e deterioração rápida.
Se ensaios maiores confirmarem os resultados em mais produtos, esta lavagem poderá reduzir desperdício sem obrigar os consumidores a descascar e perder frescura.
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