As autoridades de Cabo Verde não foram as únicas a tentar impedir que o cruzeiro “MV Hondius” desembarcasse passageiros. Também nas Canárias houve oposição: o presidente do Governo regional, Fernando Clavijo, quis travar a operação no arquipélago depois do surto de hantavírus a bordo. Assim que o Governo central autorizou a escala em Tenerife, Clavijo manifestou indignação e, na quarta-feira, pediu uma “reunião urgente” com Pedro Sánchez. O que não era conhecido - segundo o jornal “El País” - é até onde o líder canário foi para tentar bloquear o desembarque, chegando a recorrer à Inteligência Artificial (IA) para sustentar a sua posição.
Fernando Clavijo e a escala do “MV Hondius” em Tenerife
Numa reunião realizada no sábado ao fim da tarde com a ministra da Saúde, representantes da OMS e outros responsáveis, Fernando Clavijo expôs a sua preocupação com um cenário improvável: “Estamos preocupados com a possibilidade de um roedor descer durante a noite e colocar em risco a segurança dos canários”. O presidente regional sugeriu, em concreto, que ratos capazes de nadar poderiam sair do navio e disseminar o vírus na ilha.
De acordo com a mesma fonte, a ministra espanhola da Saúde, Mónica García, ficou perplexa com o tipo de argumentação, mas procurou acalmá-lo. Explicou que, se o hantavírus se espalhasse com essa facilidade através de “ratos nadadores”, então as Ilhas Canárias - e outros territórios - já teriam o vírus amplamente disseminado.
O argumento dos “ratos nadadores” e a resposta da ministra da Saúde
Mónica García reforçou a ideia com um paralelo com outra doença: "O mesmo acontece com a dengue: mosquitos não viajam; pessoas doentes, sim. Se não fosse assim, num destino turístico como as Ilhas Canárias, com centenas de navios de cruzeiro todos os anos, haveria todos os tipos de doenças vindas de outros continentes”, afirmou, acompanhada por membros da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Ainda assim, Fernando Clavijo manteve-se desconfiado e decidiu apoiar-se na IA. Fez uma pesquisa rápida para tentar demonstrar que existem roedores nadadores e mostrou à ministra uma resposta direta: “Os ratos são excelentes nadadores”.
Relatório científico sobre o hantavírus andino e ausência de roedores
Perante a persistência do impasse, a ministra concluiu que a única forma de serenar Fernando Clavijo seria obter um parecer científico. Assim, pediu a elaboração de um relatório por especialistas, que só ficou pronto já perto da meia-noite. As conclusões foram inequívocas: a estirpe que afetou os turistas do cruzeiro será a andina - a única que é transmissível entre humanos - e a transmissão ocorre, habitualmente, por contacto com excrementos ou secreções de roedores infetados. Além disso, não foi detetado qualquer vestígio de roedores no cruzeiro.
No documento, os peritos do Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias detalharam: "O reservatório natural do hantavírus andino, o rato-do-arroz-pigmeu-de-cauda-longa-da-patagônia (Oligoryzomys longicaudatus), vive principalmente no Chile e no sul da Argentina, em áreas florestais, fora de portos, e não está presente na Europa. É encontrado principalmente em florestas andinas. Por isso, a sua introdução em populações de roedores europeus e a potencial transmissão de roedores para humanos são impossíveis”, sustentaram.
Os cientistas acrescentaram ainda que essa espécie é "noturna", sobe em árvores em zonas rurais e “não é capaz de nadar até à costa”.
Apesar dos esclarecimentos, Fernando Clavijo continuou a contestar a operação até ao fim, numa coordenação conduzida entre o Governo central e a OMS. Na quarta-feira, declarou desde logo que não podia concordar com o desembarque do navio no arquipélago, alegando não existirem dados que tranquilizassem a população. E acusou o Governo de Espanha de “deslealdade institucional", enquanto a OMS, por seu lado, elogiou a "solidariedade" demonstrada por Pedro Sánchez.
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