Numa manhã enevoada em Jeddah, o ar sabe ligeiramente a pó e a ambição. Gruas de construção desenham linhas metálicas finas no horizonte e, algures para lá dos edifícios baixos, as fundações de uma torre com 1 quilómetro de altura vão endurecendo, discretamente, sob o calor. Os carros avançam a passo de caracol no trânsito, passando por outdoors que prometem “uma nova era” e “viver acima das nuvens”; nas redes sociais, muitos sauditas deslizam por imagens 3D polidas que parecem mais ficção científica do que plano urbano.
Quase se sente um estado de espírito em ecrã dividido: orgulho e desconforto a coexistirem.
E, enquanto a Arábia Saudita insiste num arranha-céus de 1 000 metros, há uma pergunta teimosa que fica a pairar no ar, tal como o pó.
Para quem é isto, afinal?
O próximo “moonshot” da Arábia Saudita: um pico de 1 km rumo ao céu
Se conduzir em direcção à costa do Mar Vermelho, perto de Jeddah, o deserto começa a encher-se de máquinas. Betoneiras, camiões de aço, equipamentos de fundações profundas a trabalhar sob o sol. No meio dessa azáfama, a intenção é erguer uma torre tão alta que fará Nova Iorque, Dubai e Xangai parecerem quase contidas.
O empreendimento tem alternado entre avanços e paragens durante anos: foi suspenso, reconfigurado, comentado em surdina e, de repente, voltou às notícias com novos concursos e números ainda mais ambiciosos. Um quilómetro é o número mágico - redondo o suficiente para caber num título, numa narrativa nacional, numa vontade de ser visto à distância.
Este projecto é o primo (nada adormecido) do mega‑projecto saudita mais conhecido, The Line. Só que, em vez de uma barra espelhada com 170 quilómetros a cortar o deserto, a fantasia aqui é vertical.
O plano - frequentemente associado à há muito adiada Torre de Jeddah - já terá absorvido milhares de milhões de dólares em terrenos, planeamento e trabalhos iniciais, segundo relatórios financeiros regionais. A investidores globais vão sendo sugeridos acordos, enquanto vídeos brilhantes simulam vistas de helicóptero a partir do 150.º piso, com barquinhos minúsculos a deslizar no Mar Vermelho muito cá em baixo.
Ao nível do chão, porém, a maioria dos residentes dificilmente entrará nos penthouses ou nos salões envidraçados nas alturas. Viverão na sombra do edifício - de forma literal e figurada.
Planeadores urbanos pegam, sem alarido, nas calculadoras. Uma estrutura com esta altura exige regras novas: para o vento, para incêndios, para elevadores que não deixem pessoas suspensas a meio do percurso quando há falhas de energia. Engenheiros falam de amortecedores de massa sintonizados e elevadores de dois andares; economistas falam de turismo, de marca e de “poder de sinalização” para os mercados internacionais.
Do lado político, o discurso é o do destino: um futuro pós‑petróleo, economias diversificadas, e a altura extrema como prova de que a transformação é real.
Mas fora desse núcleo apertado, surge outra conta: se tanto aço, betão e dinheiro forem canalizados para um único monumento vertical, o que fica por construir noutros lugares?
Precisamos mesmo de arranha-céus tão altos - ou apenas de histórias tão grandes?
O impulso de construir mais alto do que todos os outros é antigo. Da Torre de Babel à Torre Eiffel e ao Burj Khalifa, o enredo muda pouco: um marco, um país, um momento para dizer “Vejam, conseguimos.”
A aposta saudita num quilómetro encaixa perfeitamente nesse padrão. É um atalho visível para o prestígio num mundo em que as imagens viajam mais depressa do que os factos. Uma fotografia do skyline pode comunicar “modernidade” num segundo - mesmo que, nas ruas cá em baixo, persistam dificuldades com o custo da habitação ou com sistemas de saneamento.
Há aqui uma ironia silenciosa: quanto mais altos estes edifícios se tornam, menos parecem pertencer à cidade que os rodeia.
O Burj Khalifa do Dubai é a comparação mais óbvia. Cumpriu precisamente a função para que foi pensado: fixar o Dubai na imaginação global. O turismo cresceu, as selfies multiplicaram-se, e os folhetos imobiliários ganharam ainda mais audácia.
Só que, por trás do recorde, grande parte dos pisos não é pública. São apartamentos de luxo, escritórios corporativos, suites de cinco estrelas reservadas a quem já vive bem acima dos problemas do quotidiano. E continuam a existir zonas do Dubai onde trabalhadores partilham quartos - seis pessoas por quarto - muito longe do pódio reluzente da torre mais alta do mundo.
A Arábia Saudita viu essa história desenrolar-se e, ao que tudo indica, decidiu que a resposta é… ir ainda mais alto.
Arquitectos dirão que a altura é um desafio técnico, não uma questão moral: se é possível de projectar, alguém acabará por construir. Há também um argumento climático: construir em altura, e não por expansão horizontal, pode poupar terreno e reduzir a dispersão urbana quando é feito com critério.
Ainda assim, os mega‑arranha‑céus raramente nascem de habitação eficiente ou de planeamento racional. Nascem do espectáculo. Mil metros é um número escolhido pelo simbolismo, não porque a opção de 700 metros não funcionasse numa folha de cálculo.
Sejamos francos: ninguém “precisa” de um átrio com um quilómetro de altura. O que nações e líderes precisam é de uma história que prove que contam num mundo barulhento e concorrido. E os monumentos tornam essa história mais fácil de fotografar.
Como interpretar estes mega‑projectos sem ficar ofuscado pelas imagens 3D
Para perceber o que uma torre de 1 km realmente significa, comece não pela altura, mas pelo chão. Pergunte: o que acontece ao nível da rua? Há uma estação de metro, um passeio com sombra, uma praça pública onde se entra sem credencial de segurança?
Depois siga o dinheiro. Quem financia a construção, quem assume o risco e quem, dentro de vinte anos, estará efectivamente a cobrar rendas ou taxas? Quando a Arábia Saudita avança com candidaturas a recordes mundiais, isso raramente é apenas vaidade de arquitecto. Há fundos soberanos, bancos internacionais e calendários políticos cosidos a cada laje de betão.
O essencial é ignorar as publicações com vistas do último piso e aproximar o zoom das linhas orçamentais que ninguém partilha.
Todos já passámos por isso: cai um anúncio gigantesco e a primeira reacção é puro espanto. O vídeo é impecável, a música sobe, tudo parece limpo e fácil. E é simples esquecer que as cidades reais são confusas, barulhentas e nunca ficam totalmente “prontas”.
Um erro frequente é avaliar estas mega‑torres como se existissem isoladas. Não existem. Um arranha‑céus de 1 km compete com escolas, hospitais, redes de água e transportes públicos por atenção, capacidade e vontade política. Outro erro é concluir que, só porque um governo consegue construir algo, isso significa que deve fazê-lo.
Dizer “ninguém precisa disto” não é inveja. Por vezes, é apenas uma pergunta elementar sobre prioridades.
Em círculos de arquitectura e de política urbana, começa a ouvir-se, cada vez mais, a parte que antes se dizia em voz baixa.
“A altura tornou-se um substituto do progresso”, disse-me recentemente um urbanista baseado no Golfo. “Mas uma cidade habitável mede-se na horizontal, não na vertical.”
Uma forma de manter os pés no chão quando a próxima moda de mega‑torres aparecer é guardar uma pequena lista mental:
- Quem ganha acesso directo ao edifício e quem só o vê à distância?
- Que custos públicos de longo prazo ficam escondidos sob glória privada de curto prazo?
- Como se compara este projecto com investimento em transportes, parques e habitação?
- A torre continuará a fazer sentido se o turismo abrandar ou se o preço do petróleo cair?
- Há um plano para manutenção - ou apenas para o dia da inauguração?
Para lá da corrida ao céu: que tipo de cidades queremos, na prática?
O sonho saudita de um quilómetro de altura chega num momento estranho. As cidades atravessam vagas de calor recorde, as comunidades pedem sombra e árvores, e as gerações mais novas dizem preocupar-se mais com rendas e qualidade do ar do que com silhuetas brilhantes. Ao mesmo tempo, líderes nacionais continuam a apoiar-se em mega‑símbolos para projectar confiança e controlo.
Não há como negar: uma torre assim vai seduzir as câmaras. Vai dominar postais, imagens de drone e, provavelmente, o seu feed na semana em que abrir. Pode até alimentar orgulho nacional durante algum tempo, dando às pessoas um marco para apontar e dizer: “Isto somos nós.”
No entanto, a conversa mais profunda não é sobre um único arranha‑céus saudita. É sobre a forma como imaginamos o progresso quando os truques antigos começam a parecer um pouco gastos.
As cidades que dão gosto viver raramente batem recordes globais. São aquelas onde os autocarros aparecem, onde os passeios não são um campo minado, onde se encontra um apartamento a preço decente sem ter de fugir para a periferia mais distante. Estas melhorias não geram imagens virais, mas transformam o dia-a-dia.
As mega‑torres, pelo contrário, mudam a percepção depressa e a realidade devagar. A questão é se ainda estamos dispostos a trocar a primeira pela segunda. Ou se esta nova investida saudita rumo ao céu será lembrada não só como um feito de engenharia, mas como o símbolo de um ponto de viragem - quando as pessoas passaram a perguntar, com menos deslumbramento e mais nitidez:
E se a próxima coisa “mais alta” que construirmos não for uma torre, mas uma ideia diferente de sucesso?
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Torre saudita de 1 km como símbolo | O projecto funciona tanto como ferramenta de marca global e declaração política como como edifício | Ajuda a ver para lá do entusiasmo e a perceber o que o arranha‑céus realmente sinaliza |
| Quem beneficia dos mega‑arranha‑céus | O acesso tende a ficar reservado a elites, investidores e turistas, enquanto os residentes comuns vivem na sombra | Leva-o a questionar de quem são as necessidades servidas pela arquitectura de recordes |
| Como avaliar futuros mega‑projectos | Observe o impacto ao nível da rua, os custos públicos, os planos de manutenção e as oportunidades perdidas | Dá-lhe uma lista mental simples para descodificar qualquer anúncio de “o mais alto do mundo” |
Perguntas frequentes:
- Porque é que a Arábia Saudita está a insistir agora num arranha‑céus de 1 km? Porque o país está a acelerar a diversificação para lá do petróleo; os líderes usam projectos ultra‑visíveis para sinalizar modernidade, atrair investimento estrangeiro e enquadrar a agenda da Vision 2030 como ousada e irreversível.
- Um arranha‑céus de um quilómetro é tecnicamente seguro? Os engenheiros sabem como desenhar edifícios extremamente altos com amortecedores para o vento, sistemas avançados de segurança contra incêndios e elevadores de alta velocidade, mas quanto mais se sobe, mais complexa e cara se torna cada camada de segurança.
- As mega‑torres ajudam mesmo a economia local? Podem reforçar o turismo e valorizar o imobiliário em zonas específicas; ainda assim, os benefícios mais amplos dependem, muitas vezes, de a torre estar integrada com transportes, emprego local e bairros envolventes, em vez de funcionar como ícone isolado.
- Este dinheiro podia ser melhor aplicado noutras prioridades urbanas? Muitos planeadores defendem que sim, sublinhando que os mesmos fundos poderiam transformar transportes públicos, habitação e infra‑estruturas básicas para muito mais pessoas do que uma única torre‑símbolo alguma vez conseguirá.
- Vamos continuar a construir cada vez mais alto, ou existe um limite? Ainda não existe um tecto físico absoluto, mas as pressões financeiras, ambientais e sociais já estão a levar as cidades a questionar alturas extremas e a olhar para resiliência, acessibilidade e qualidade de vida como novas medidas de progresso.
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