No extremo norte de França, uma antiga zona siderúrgica procura reinventar-se de forma discreta, alinhando-se com a próxima vaga de eletrificação.
Entre pavilhões recuperados, gruas e bobinas de aço brilhantes, a ArcelorMittal está a levantar em Mardyck um investimento de meio milhar de milhão de euros. O objetivo não passa por fabricar “aço comum”, mas sim um produto muito particular, pouco visível e decisivo: o aço elétrico, peça-chave para motores, transformadores e redes inteligentes que irão suportar a transição energética europeia.
Aposta bilionária para um mercado que dispara até 2032
Os 500 milhões de euros aplicados em Mardyck, perto de Dunquerque, representam o maior compromisso industrial da ArcelorMittal na Europa na última década. A empresa aponta a um mercado avaliado em cerca de 32 mil milhões de euros em 2023 e com previsão de atingir 57 mil milhões de euros em 2032, impulsionado por automóveis elétricos, energia eólica, redes inteligentes e eletrodomésticos de alta eficiência.
"A França tenta posicionar-se como fornecedora central de uma matéria-prima sem a qual a eletrificação em grande escala simplesmente não acontece."
O calendário está definido: três linhas de produção deverão arrancar até ao final de 2025, com a ambição de chegar a cinco até 2027. Toda a configuração foi pensada para abastecer fabricantes europeus que querem reduzir a dependência da Ásia em componentes estratégicos, ao mesmo tempo que respondem a metas climáticas mais exigentes.
Quem é o gigante por trás do projeto em Mardyck
Para perceber a dimensão desta fábrica, importa recuar à história da ArcelorMittal. O grupo nasceu em 2006, com a fusão entre a europeia Arcelor e a Mittal Steel, liderada pelo indiano Lakshmi Mittal. Esse movimento abalou a siderurgia europeia, reunindo marcas históricas como Usinor, Arbed e Aceralia sob uma única estrutura.
Com sede no Luxemburgo, a empresa atravessou ciclos de expansão e contração do aço, encerrou unidades, enfrentou a concorrência chinesa e, em 2020, perdeu para a estatal China Baowu o título de maior produtora mundial. Neste contexto, a aposta em produtos de maior valor acrescentado tornou-se uma questão de sobrevivência - e é aí que o aço elétrico ganha centralidade.
"Mais do que volume, Mardyck simboliza a viragem da siderurgia clássica para uma siderurgia “energética”, ligada à eletrificação e à eficiência."
O que é, afinal, o tal do aço elétrico?
O nome pode fazer pensar em perfis gigantes a sair de altos-fornos, mas o produto final está longe dessa imagem. O aço elétrico chega aos clientes sob a forma de tiras muito finas, laminadas e tratadas com um nível de controlo quase cirúrgico.
Um material que guia o magnetismo
A função deste aço é conduzir fluxos magnéticos no interior de motores, transformadores e geradores, reduzindo ao mínimo as perdas de energia sob a forma de calor. Sem este material, os motores elétricos consomem mais, aquecem em excesso e acabam por ter menor durabilidade.
- Nos motores de automóveis elétricos, as chapas têm espessura na ordem de 0,2 a 0,35 milímetro.
- Em transformadores e grandes máquinas industriais, as especificações variam consoante a frequência e a carga.
- Quanto mais fino for o aço, menores tendem a ser as perdas magnéticas e maior o rendimento.
Na prática, isto traduz-se em mais autonomia para o veículo, faturas de eletricidade mais baixas em ambiente industrial e redes elétricas a operar com maior eficiência.
Uma linha integrada: do bobinamento ao componente pronto
A nova unidade de Mardyck não se limita a ser um posto de corte. Trata-se de uma cadeia integrada concebida para fornecer produtos já preparados para fabricantes de motores e de equipamento elétrico.
As três linhas da primeira fase
Nesta fase inicial, o arranque assenta em três linhas principais:
- Linha de preparação: recebe bobinas de aço e executa a limpeza, o acerto de espessura e a preparação da superfície.
- Linha de recozimento contínuo e verniz: submete o aço a tratamento térmico para ajustar as propriedades magnéticas e aplica uma camada isolante.
- Linha de refilamento (refendage): corta as tiras nas larguras exatas pedidas pelos fabricantes.
O recozimento reorganiza a microestrutura do aço, favorecendo o caminho dos campos magnéticos. O verniz assegura o isolamento elétrico de cada lâmina, reduzindo correntes parasitas. No final, milhares de chapas são empilhadas para formar o estator e o rotor - o “coração” dos motores elétricos.
"O aço elétrico não gera energia, mas impede que ela escape. É um multiplicador silencioso de desempenho."
Capacidade: 155 mil toneladas por ano só em Mardyck
Em regime de plena utilização, o complexo de Mardyck deverá produzir 155 mil toneladas anuais de aço elétrico. Aos valores de mercado atuais, isso equivale a um potencial de faturação entre 153 milhões e 204 milhões de euros por ano.
Somando a produção de Mardyck à unidade de Saint-Chély-d’Apcher, na região de Lozère, a capacidade europeia de aço elétrico da ArcelorMittal alcançará 295 mil toneladas anuais, integralmente produzidas em território francês. Esta concentração reforça o controlo nacional sobre um elo crítico da cadeia da eletromobilidade.
| Unidade | Localização | Capacidade anual estimada | Papel na cadeia |
|---|---|---|---|
| Mardyck | Norte de França | 155.000 t | Nova linha integrada para eletromobilidade e redes |
| Saint-Chély-d’Apcher | Lozère | 140.000 t (aprox.) | Unidade histórica, suporte tecnológico e de formação |
Um estaleiro de grande escala e uma aposta em emprego qualificado
Durante a fase de obra, o projeto envolveu até 400 pessoas, incluindo engenheiros, montadores, especialistas em automação e fornecedores. Participaram mais de 300 empresas externas na construção e na reabilitação de antigas infraestruturas industriais.
Na exploração, 175 profissionais já trabalham diretamente na cadeia de aços elétricos em Mardyck e Dunquerque. A projeção aponta para cerca de 200 pessoas dedicadas após a segunda fase, em funções que vão da operação das linhas à manutenção, controlo de qualidade, gestão de energia e digitalização.
A gestão das linhas ficou a cargo de Gaëlle Le Papillon, chefe de departamento. As equipas reúnem perfis experientes da siderurgia e novos elementos, apoiados por mais de 12 mil horas de formação, grande parte realizada em Saint-Chély-d’Apcher, de onde veio a transferência de conhecimento acumulado.
Fileira da eletromobilidade: a peça que faltava no norte de França
O norte francês tornou-se um laboratório da nova indústria automóvel europeia. A região de Hauts-de-France já atraiu fábricas de baterias, plataformas logísticas e fornecedores de componentes para veículos elétricos.
"Com Mardyck, a região não quer ser só montadora de carros, mas também produtora dos materiais mais sofisticados que vão dentro deles."
Ao concentrar a produção europeia de aço elétrico em França, a ArcelorMittal envia um sinal claro a construtores automóveis, fabricantes de turbinas e gestores de rede: é possível estabelecer uma cadeia de fornecimento crítica dentro da União Europeia, com menor exposição a “apagões” de importação, como os verificados durante a pandemia.
Estado francês entra com apoio via France 2030
O financiamento não assenta apenas em capital privado. O Estado francês contribui com 25 milhões de euros através do programa France 2030, destinado a reforçar setores estratégicos da transição energética, como hidrogénio, baterias e, agora, materiais magnéticos.
O raciocínio é direto: se automóveis, redes e parques eólicos forem elétricos, quem dominar materiais como o aço elétrico ganha vantagem industrial e geopolítica. A França procura ocupar esse espaço, com o mercado europeu como horizonte.
Mercado global puxado por redes inteligentes e eletrificação massiva
A trajetória até 57 mil milhões de euros em 2032 não depende apenas do automóvel elétrico visível nas estradas. Uma parcela relevante da procura deverá resultar da modernização das redes de energia, que se tornam “inteligentes” para acomodar a variabilidade da produção solar e eólica.
Essas redes passam a exigir:
- transformadores mais eficientes;
- equipamentos de compensação reativa;
- contadores e sensores de nova geração.
Todos estes dispositivos consomem quantidades significativas de aço elétrico de elevada qualidade. À medida que os países assumem compromissos para reduzir perdas técnicas nas redes, a adoção de materiais superiores deixa de ser opcional e transforma-se numa exigência técnica e regulamentar.
Alguns termos que valem ser entendidos
Dois conceitos surgem com frequência neste tema e ajudam a dimensionar o alcance do projeto de Mardyck.
Perdas magnéticas: correspondem às frações de energia que se dissipam em calor quando um campo magnético alternado atravessa o núcleo de um motor ou transformador. Um aço elétrico de boa qualidade reduz essas perdas, o que implica menor aquecimento e melhor eficiência.
Redes inteligentes: são sistemas elétricos equipados com sensores, automação e software, permitindo ajustar em tempo real o fluxo de energia, desviar cargas, integrar renováveis e reagir mais rapidamente a falhas. Sem materiais magnéticos de qualidade, estes equipamentos teriam de ser maiores, mais caros e menos eficientes.
Cenários e riscos nesta corrida pelo aço elétrico
Se a procura global de aço elétrico crescer como está previsto, instalações como Mardyck poderão operar perto do limite durante muitos anos, assegurando contratos de longo prazo com construtores automóveis e operadores de rede. Num cenário de eletrificação acelerada, a pressão para expandir capacidade poderá surgir já na próxima década.
Há riscos evidentes. A concorrência asiática pode responder com estratégias de preço agressivas. Evoluções tecnológicas - como motores que usam menos aço ou materiais alternativos para transformadores - também podem alterar este equilíbrio. A própria transição energética está sujeita a incertezas políticas e regulamentares.
Por outro lado, a combinação de apoio público, proximidade de grandes clientes europeus e foco na qualidade técnica coloca Mardyck numa posição estratégica. Em vez de vender apenas toneladas de aço, a ArcelorMittal procura vender desempenho energético - um ativo com tendência para ganhar valor à medida que a eletricidade se torna dominante na economia.
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