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Mantas com peso: funcionam mesmo para a ansiedade e o sono?

Pessoa a descansar no sofá coberta com manta cinzenta, com chá quente e um livro aberto na mesa.

Foram apresentados como um remédio para a ansiedade e para a insónia, com celebridades e influenciadores a garantirem os seus efeitos tranquilizantes. As mantas com peso - cobertores pesados preenchidos com microesferas de vidro ou pellets de plástico - passaram de uma ferramenta terapêutica de nicho para um artigo de bem‑estar de grande consumo, com a promessa de um sono melhor e menos stress para quem tem dificuldade em desligar.

Mas será que correspondem a estas afirmações ambiciosas, ou estaremos apenas a pagar um preço elevado por um placebo caro?

Os terapeutas ocupacionais utilizam mantas com peso desde a década de 1970 para apoiar crianças com autismo e adultos com perturbações do processamento sensorial. Apesar de terem chegado ao mercado comercial na década de 1990, durante muito tempo ficaram sobretudo circunscritas a comunidades ligadas a necessidades especiais.

Nos últimos anos, isto mudou de forma marcante quando algumas empresas começaram a apontar baterias ao que chamam os "ansiosos ocasionais" - na prática, qualquer pessoa pressionada pelos stresses da vida moderna. A estratégia resultou: a revista Time chegou a eleger a manta com peso como uma das 50 principais "invenções" de 2018.

Como funcionam as mantas com peso

A ideia por detrás das mantas com peso é, à partida, bastante simples. Em geral, pesam entre 2 e 13 quilogramas (os especialistas aconselham escolher uma que corresponda a 10% do peso corporal) e recorrem ao que os terapeutas ocupacionais designam por "estimulação de pressão profunda". Essa pressão suave e uniforme sobre o corpo procura reproduzir a sensação de estar a ser segurado ou abraçado.

O que diz a ciência

A evidência científica é mais complexa do que a publicidade costuma sugerir. Existem estudos com resultados encorajadores, mas também com nuances importantes.

Um estudo com 120 doentes em ambulatório na área da psiquiatria concluiu que as mantas com peso melhoraram sintomas de insónia ao longo de 4 semanas em pessoas com depressão major, perturbação bipolar, ansiedade e TDAH. Os investigadores consideraram que eram "uma intervenção segura e eficaz para a insónia em doentes com algumas perturbações de saúde mental".

Trabalhos de menor dimensão apontaram para tendências semelhantes. Num deles, 63% dos adultos referiram menos ansiedade após apenas 5 minutos sob uma manta com peso; noutro, realizado com doentes internados em psiquiatria, 60% disseram ter sentido redução da ansiedade durante o período de internamento.

Ainda assim, há um ponto crucial: estes estudos concentraram‑se em pessoas com diagnósticos de saúde mental, e não na população em geral que hoje é o alvo de muitas marcas.

É aqui que a ciência se afasta do marketing: revisões da investigação têm mostrado de forma consistente que é muito mais difícil comprovar benefícios em pessoas saudáveis. As mantas com peso podem ser úteis para quem tem ansiedade clínica ou perturbações do sono, mas não há evidência suficiente de que tragam vantagens a utilizadores ocasionais sem condições de saúde mental pré‑existentes.

Acresce que cerca de metade da investigação sobre mantas com peso não cumpre padrões de qualidade exigidos para evidência científica robusta - o que é especialmente relevante face às afirmações seguras feitas em sites de produtos e ao entusiasmo de algumas revistas de estilo de vida.

Quem pode beneficiar?

Isto não significa que, para pessoas saudáveis, as mantas com peso sejam totalmente inúteis. Trabalhadores por turnos, que precisam de dormir durante o dia quando o cérebro tende a estar naturalmente mais desperto, podem considerá‑las úteis para contrariar efeitos na saúde já conhecidos associados a horários irregulares. Profissionais de saúde, bombeiros e pilotos, que por vezes dependem de sestas estratégicas, podem também beneficiar se conseguirem adormecer mais depressa.

Também não se deve desvalorizar o efeito placebo. Se uma manta com peso o ajudar a sentir‑se mais calmo e a dormir melhor - mesmo que o mecanismo não seja exatamente o que os fabricantes descrevem - isso pode ser um resultado positivo, desde que saiba o que está a comprar.

Riscos e expectativas realistas

As mantas com peso não estão isentas de riscos. Não devem ser usadas por quem não consiga mover‑se facilmente debaixo do seu peso, incluindo crianças pequenas. Pessoas com diabetes, asma, apneia do sono, DPOC, problemas de circulação, tensão arterial elevada ou claustrofobia devem falar com o seu médico de família antes de optarem por utilizar uma.

Não há estudos que tenham identificado danos graves, mas o senso comum aponta para a importância de confirmar com um profissional de saúde sempre que existam problemas de saúde de base.

Enquanto intervenção de baixo risco que pode complementar uma boa higiene do sono e ciclos de sono regulares, as mantas com peso não são, por si, problemáticas. O problema está em exagerar o que conseguem fazer.

Se está a pensar comprar uma, vale a pena manter expectativas realistas. Não está a adquirir uma cura milagrosa para a ansiedade moderna, mas sim uma ajuda potencialmente reconfortante para a hora de deitar, que pode fazer com que se sinta mais tranquilo. Para muitas pessoas com dificuldades em dormir, essa pressão suave e a sensação de segurança podem justificar o investimento, mesmo que a ciência não seja tão sólida quanto a publicidade dá a entender.

A verdadeira questão não é se as mantas com peso funcionam, mas se funcionam para si - e se o preço premium se justifica por aquilo que, no fim de contas, pode ser apenas um abraço caro.

Craig Jackson, Professor of Occupational Health Psychology, Birmingham City University

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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