As cidades estão a aquecer de formas que se sentem no dia a dia. Basta sair à rua numa noite de verão para perceber que o calor não desaparece. As estradas e os edifícios retêm a temperatura muito depois do pôr do sol.
Há bairros que se mantêm mais frescos porque têm árvores ao longo das ruas. Outros ficam mais expostos, com pouca sombra e um desconforto crescente. Esta diferença influencia a saúde, o consumo de energia e a vida quotidiana.
As árvores urbanas são uma forma directa de arrefecer as cidades: bloqueiam a radiação solar, libertam humidade e ainda ajudam a melhorar a qualidade do ar. Ainda assim, plantar é apenas o começo.
O mais difícil é mantê-las vivas nas condições exigentes do meio urbano. Um estudo recente em Dayton, Ohio, mostra o que é necessário para fazer crescer árvores exactamente nos locais onde fazem mais falta.
As cidades vão ficar mais quentes
As áreas urbanas acumulam calor por causa do betão, do asfalto e do tijolo. Estes materiais absorvem a luz solar durante o dia e libertam-na lentamente durante a noite.
É assim que surge o efeito de ilha de calor urbana, que aumenta as temperaturas em comparação com zonas rurais próximas.
As árvores ajudam a atenuar este efeito, criando sombra e reduzindo a temperatura das superfícies. Estudos indicam que a cobertura arbórea pode baixar a temperatura diária nas cidades em cerca de 3 graus Celsius (5.4 graus Fahrenheit). Além disso, ao reduzir a necessidade de arrefecimento, as árvores também diminuem a procura de electricidade.
“Vai continuar a ficar mais quente no futuro”, afirmou Erika Wright, primeira autora do estudo e estudante na The Ohio State University.
“Por isso, precisamos de saber se devemos tentar criar ambientes mais resilientes a essas mudanças.”
Cidades pós-industriais enfrentam riscos
Dayton é um exemplo de cidade pós-industrial, muitas vezes referida como uma legacy city: locais que em tempos tiveram economias industriais fortes, mas que perderam população e rendimento. Desde a década de 1970, Dayton perdeu cerca de metade da sua população.
Com menos recursos disponíveis, torna-se mais difícil cuidar de espaços verdes. Em muitos bairros, a cobertura de árvores é muito baixa. Em certas zonas, os níveis de copa descem para apenas cinco a oito por cento.
A falta de sombra aumenta a exposição ao calor e os riscos para a saúde, sobretudo entre pessoas mais idosas.
“As pessoas nem sempre pensam em como o seu quintal se liga ao ambiente à volta, mas todos contribuímos para a floresta urbana quando plantamos no nosso próprio espaço”, disse Wright.
Plantar árvores nas cidades
A equipa de investigação plantou 640 árvores jovens em 20 locais de Dayton, incluindo parques e um terreno devoluto.
Os locais diferiam no grau de superfície impermeável em redor, com valores entre 7 por cento e 65 por cento.
Foram escolhidas oito espécies nativas, entre as quais o bordo-vermelho, a catalpa-do-norte e o carvalho-branco. Para permitir a comparação da sobrevivência em condições distintas, cada local recebeu a mesma combinação de espécies.
Testar métodos de rega
A água é decisiva para a sobrevivência das árvores nos primeiros tempos. Os investigadores compararam quatro estratégias de rega. Um grupo dependeu apenas da chuva. Outro recebeu 19 litros (5 galões) de água de duas em duas semanas.
Um terceiro grupo recebeu a mesma quantidade uma vez por mês. O último recorreu a sacos Gator, que levam cerca de 75 litros (20 galões) e libertam água de forma lenta ao longo do tempo.
Estas abordagens espelham escolhas reais das autarquias. Regar com regularidade implica mão-de-obra e custos contínuos. Sistemas de libertação lenta exigem investimento inicial.
Metade das árvores sobreviveu
No final da época de crescimento, apenas cerca de 48 por cento das árvores tinham sobrevivido. Algumas também desapareceram, provavelmente por terem sido removidas ou danificadas.
A sobrevivência variou bastante consoante a espécie. O bordo-vermelho destacou-se, com 91 por cento de sobrevivência. A nyssa (black gum) teve dificuldades, ficando-se por 10 por cento. O carvalho-branco também registou uma taxa de sobrevivência baixa.
O estado das árvores no momento da plantação revelou-se igualmente importante. Em algumas espécies, já se observava fraca saúde desde o início, o que sugere que a qualidade do viveiro pode influenciar os resultados.
Sacos Gator deram os melhores resultados
De forma geral, os sacos Gator foram a opção com melhor desempenho para a maioria das espécies. Como libertam a água lentamente, permitem que esta se infiltre mais profundamente no solo, ajudando as árvores a suportar melhor períodos secos.
No entanto, esta solução tem um custo. Cada saco custa cerca de 30 dólares. Quando se fala de centenas de árvores, o valor torna-se elevado. Além disso, alguns sacos foram danificados por equipamentos ou por pessoas, o que agrava a dificuldade.
O calor afecta as espécies de forma diferente
As árvores não reagem todas da mesma maneira às temperaturas elevadas. Algumas espécies tiveram pior desempenho em zonas com muito pavimento. A sobrevivência da nyssa (black gum) caiu de forma acentuada nos locais mais quentes.
Outras espécies toleraram melhor o calor. A catalpa-do-norte teve bons resultados em todos os locais. O bordo-vermelho e a gledítsia (honey locust) também mostraram elevada resistência. Mesmo em condições mais quentes, estas espécies mantiveram um crescimento saudável.
Impacto humano nas árvores
O stress ambiental não é o único problema. A actividade humana também afecta a sobrevivência. Num dos parques, 30 das 32 árvores jovens desapareceram - partidas ou removidas por pessoas que utilizavam o espaço.
“Mesmo depois de as árvores estarem bastante bem estabelecidas, vimos perdas, o que foi surpreendente”, disse Wright.
Isto reforça a importância da sensibilização da comunidade. Em espaços públicos, as árvores dependem do cuidado e da protecção locais.
A diversidade continua a ser importante
À primeira vista, pode parecer mais prático plantar apenas as espécies mais resistentes. Ainda assim, depender de poucas espécies aumenta o risco. Doenças ou pragas podem espalhar-se rapidamente em populações de árvores demasiado uniformes.
Uma estratégia mais equilibrada tende a funcionar melhor. Pode começar-se por espécies robustas para criar sombra e estabilizar o ambiente. Mais tarde, podem introduzir-se espécies mais sensíveis. Assim, constrói-se uma floresta urbana mais forte e estável.
Lições principais para as árvores urbanas
O estudo deixa indicações claras para quem planeia as cidades. Em primeiro lugar, é essencial escolher a espécie certa para as condições específicas de cada local, porque nem todas se adaptam a todos os sítios. Em segundo lugar, compensa investir nos cuidados iniciais: rega e manutenção nos primeiros anos aumentam as hipóteses de sobrevivência.
As cidades também devem contar com danos e preveni-los. Proteger as árvores jovens de equipamentos de corte e da utilização intensa de espaços públicos ajuda-as a crescer. Envolver residentes pode melhorar o acompanhamento e reduzir perdas.
“Quando uma cidade investe na reflorestação de um parque, tem de plantar mais árvores do que aquelas que pretende manter a longo prazo, porque haverá uma percentagem que morre”, afirmou a co-autora Mary Gardiner.
“Mas mesmo pequenas diferenças na gestão podem significar enormes variações na sobrevivência.”
Plantar sem garantir acompanhamento posterior é desperdiçar recursos. Uma árvore que morre cedo não traz benefícios. Uma árvore que se mantém viva pode arrefecer ruas durante décadas.
Por isso, o cuidado após a plantação é uma das componentes mais importantes da gestão de árvores urbanas. Mesmo investimentos modestos em manutenção podem melhorar resultados a longo prazo.
Cidades resilientes num clima em aquecimento
No estudo, metade das árvores sobreviveu. Pode parecer pouco, mas mostra o que é possível mesmo em condições difíceis. Estas árvores resistiram a calor, solo fraco e pouca água.
Com melhor planeamento, as taxas de sobrevivência podem subir. As cidades podem escolher espécies mais fortes, aplicar rega direccionada e envolver as comunidades.
“Procurar estratégias custo-eficazes para que as cidades sejam resilientes face a um clima em aquecimento é uma táctica importante”, disse Gardiner. “A conservação deste tipo gera um grande retorno a longo prazo.”
As florestas urbanas levam tempo a formar-se. As decisões tomadas hoje vão moldar a vida nas cidades durante muitos anos.
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